quinta-feira, 20 de setembro de 2012


Vinhos e marés


E eu que não me calo
e não falo
sobre aquilo que não me convém,
sou arredio, fruto proibido
das dores e sofrimentos
do mundo,
de tudo que se cala,
dos olhos que não veem.


O senhor falso, de pernas trôpegas
caminhante descalço
do chão em brasa
e suntuosas falas,
essa bela farsa,
nossas crenças tão humanas
que nos arrastam em turbilhões
de fugas,
porres alcoólicos e sonhos delirantes,
eis a soberba oração,
eloquente,
engolfando multidões.


Meu copo está vazio,
o mundo me acompanha,
amargos são os deleites,
doces epifanias divinas,
onde mais uma vez vejo o seu sorriso
como uma bela estampa,
em uma revista qualquer,
de uma vida qualquer,
de um tempo que se foi,
perdeu-se na memória daqueles que não viram,
e por isso não creem...


E se vão, os ciclos da vida pueril
morte e renascimentos,
tolamente disfarçados por nossos medos,
insanos, pobres mortais que somos,
mas deuses também significamos
perdidos na praia, deitados em solo fértil,
vivos ou mortos,
navegantes das mágoas e das marés
inebriantes e sedutoras,
de um harmonioso vinho chileno.


Não há limites para o óbvio?
Não, os limites somos...
somos reinventores de nós mesmos, sonhamos
e acordamos absortos com o que vemos,
o mundo não acabou e
o universo paralelo nasce aqui,
em mim,
todos os dias que morremos.




Roberto Almeida,
20092012

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